Alzira Lemos: Uma militante feminista – uma modesta homenagem

Maria Alzira Lemos
Militante Feminista (1919-2005)

Antigo Membro do Conselho de Administração da AFEM em representação de Portugal, o seu percurso de vida desde 1974 confundiu-se com a evolução da democracia, dos direitos das mulheres e da igualdade de género em Portugal.  

Militante, tolerante e fiel às suas convicções, ela prosseguiu, com infatigável perseverança até ao último dia da sua vida, uma intervenção política e cívica de uma enorme coerência, tanto em Portugal como ao nível internacional.

Embora das mais seniores feministas portuguesas, ela foi sempre uma referência para as gerações de feministas que lhe sucederam, porque ela própria foi sempre jovem de espírito contribuindo para a evolução da doutrina, para a formulação de novos conceitos e estratégias de intervenção.

Jurista de enorme lucidez analítica, mas também de grande criatividade, ela foi a primeira mulher convidada a proferir uma conferência na Ordem dos Advogados. Foi membro da Assembleia Constitucional de 1975 e deputada à Assembleia da República eleita pela circunscrição da emigração portuguesa na Europa em 1977.

Ela foi convidada a integrar, enquanto perita, o mecanismo nacional para a igualdade, aquando da sua criação em 1975, aí tendo permanecido até 1992. Foi membro fundador do Departamento Nacional de Mulheres do Partido Socialista Português, da Intervenção Feminina (1985) e da Aliança para a Democracia Paritária (1994) e, nos seus dois últimos anos de vida, foi incentivadora da constituição da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres.

Ao nível internacional, ela foi nomeada delegada governamental para a Conferência de Pequim e membro do Comité Director para a Igualdade entre Mulheres e Homens do Conselho da Europa.  

Em reconhecimento da sua actividade cívica, foi distinguida pela Presidência da República em 1977 com a Ordem de Mérito.  

Nas vésperas da sua doença, que se veio a revelar fatal três dias mais tarde, ela deslocou-se expressamente a uma reunião com o membro do Governo responsável pela pasta da igualdade e a sua intervenção, nessa ocasião, foi a única a suscitar aplausos espontâneos na sala.

Neta de Afonso Costa – antigo Primeiro Ministro Português e notável personagem política do fim da Monarquia e da I Republica – passou grandes períodos em Paris junto do seu avô, que aí se exilou na sequência do golpe de estado que implementou a ditadura fascista em Portugal. Naquele país iniciou a sua vida profissional e mais tarde fê-lo descobrir aos seus filhos e netos.

Maria Alzira Lemos era uma pessoa extraordinária, completa e preenchida a todos os níveis.  O seu funeral teve lugar no dia 5 de Outubro, aquando do 95º aniversário da implementação da República em Portugal, uma coincidência que sublinha o exemplo de cidadania republicana que ela sempre foi.  
Maria Alzira Lemos está na memória de todas as pessoas que tiveram o privilégio de a conhecer. As mulheres portuguesas, mesmo que não o saibam, são-lhe devedoras.

LA GAZETTE DE L’AFEM, Nº 36 (Tradução: REDE)

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