Onde acaba o objeto e começa o sujeito?

O corpo das mulheres é quotidianamente tratado sem respeito e como mera mercadoria, em benefício dos interesses das marcas comerciais. É regularmente reduzido a um objeto com a finalidade de satisfazer os desejos dos homens.

A objetificação é definida como:

“Processo que atribui ao ser humano a natureza de um objeto material, tratando-o como um objeto ou coisa; coisificação.”

O sistema em que vivemos – o capitalismo – usa este corpo para maximizar os lucros e desempenha um papel catastrófico na perceção do corpo feminino tanto por homens como por mulheres.

A comercialização dos corpos de mulheres (pornografia, publicidade, cosméticos) reduz progressivamente as mulheres ao estatuto de objetos e dissemina clichés que banalizam a violência sexual baseada no sexo.

Este tema é discutido pelos movimentos feministas desde a década de 70, no entanto, não é uma realidade exclusiva das mulheres. O mesmo processo de objetificação aparece, mais uma vez, ligado à procura de lucro, na transformação dos corpos dos povos negros, escravizados, em mera força de trabalho.

Os movimentos feministas que visam reivindicar o corpo feminino e o direito de possuí-lo, indicam um deslocamento conceptual: o corpo passa do registo do ser para o de ter. Esta mudança parece caracterizar o processo histórico no qual o corpo gradualmente se dissociou da pessoa, dando lugar ao indivíduo moderno. Mas, para as mulheres, possuir um corpo continua a ser uma questão de luta. Pois, como muitas investigadoras feministas analisaram – as mulheres não têm corpo nem sexo: elas são o próprio corpo e o sexo, e nada mais (Guillaumin, 1992). Daí a necessidade da reivindicação política para nos reapropriarmos do direito de ter um corpo, de ser uma pessoa, ou seja, um indivíduo que já não é o seu corpo, mas que o habita. O homem, pelo contrário, não é visto como um objeto, mas sim um sujeito – não estando limitado pelo seu corpo nem pelo seu sexo – encontra-se livre para possuir outros.

“O homem possui a mulher” – esta frase exemplifica a apropriação sexual de mulheres por homens e a objetificação que daí resulta. Este modo de conceber a dominação masculina gerou um fenómeno único no patriarcado ocidental, ou seja, a sugestão da não existência das mulheres, se não como objeto do desejo dos homens. Será que teremos sempre de estar circunscritas a um assunto que age e um objeto que é atuado, presas dentro de uma lógica de dominação patriarcal e capitalista?

Todos estes fenómenos são consequências de um sistema que mantém as mulheres numa posição de cidadãos de segunda categoria. As mulheres adquiriram muitos direitos através de lutas (direito de voto, direito ao trabalho, etc.) no entanto, persistem ainda tantas desigualdades. Quem continua a negar a persistência destas desigualdades está a obstruir o potencial progresso e, possivelmente, permanece ainda sob o jugo de alguma forma de tirania.

Esta situação combinada com uma hipersexualização dos corpos das mulheres e uma banalização da violência baseada no sexo são o terreno necessário para o sexismo diário experienciado pelas mulheres. Os únicos que veem nele algo positivo são aqueles que fazem enormes lucros com o corpo das mulheres.

O sistema em que vivemos é um sistema que visa apenas os lucros de uma pequena minoria e coloca em segundo plano as necessidades e a segurança da maioria da população. É por isso que a comercialização de organismos na publicidade e nos meios de comunicação social continua a ser uma realidade muito presente.

Uma das propostas foi a criação de cursos de educação sexual em todas as escolas a todos os níveis. Esta é uma tentativa de não deixar este aspeto da educação nas mãos da internet e da televisão, mas antes permitir que os jovens falem sobre a sexualidade, as relações emocionais, mas também as identidades sexuais e de género num local seguro. Mas isso só é possível se forem atribuídos recursos suficientes ao ensino para que as turmas sejam mais pequenas e professores formados e em número suficiente para abordar estas matérias.

Embora vivamos numa era onde se discute abertamente a igualdade entre sexos e haja cada vez menos tolerância em relação à banalização do corpo feminino, ainda há muitas vozes que se erguem contra a posição das feministas. Alguns argumentam que as mulheres, que expõem os seus corpos nos media, estão a fazê-lo voluntariamente, o que demonstraria, segundo eles, que não é algo problemático. Muitas ações são feitas de forma voluntária, o que não significa que são feitas de forma informada e livre de constrangimentos. Não se pode culpabilizar mulheres, nem nenhuma outra classe oprimida, por reproduzirem comportamentos instigados pelo sistema vigente. Para além disso, as consequências da hipersexualização da imagem feminina estendem-se para além do indivíduo que expôs o seu corpo.

Para romper com este sistema vigente é necessário olhar criticamente para qualquer tipo de objetificação feminina e entender as mulheres como seres completos. É preciso fortalecer esse discurso e questionar qualquer um que se erga contra, para que mulheres não sejam mais submetidas a qualquer tipo de violência, seja ela física, sexual ou simbólica. É necessário estimular uma reflexão constante sobre as relações mantidas com as mulheres, para que estas sejam completas e que se estendam além do desejo sexual. É necessário consumir obras, trabalhos e produtos de entretenimento feito por mulheres e sobre mulheres e rejeitar o consumo do corpo alheio. Todos nos devemos questionar como estamos a contribuir para essa objetificação e como podemos pará-la?

Sofia Jesus [Técnica de Projeto do dMpM4 (Centro)]