Nudez subtil

Despi-me,

desmenti estas mentiras

que tu tanto pediras…

tirei o vestido preto,

as meias que brilhavam

as mentiras

às quais me comprometo…

Retirei os brincos,

o fio de prata,

como o nó da sapatilha que desata…

vi o espelho; reflexo impuro,

mente vazia, desejo duro…

Retirei este amarrar

que prende como facas a espetar

o ar

que cobria todo o meu ser.

Quando dei por mim,

esta nudez subtil

fez se, assim,

tão viril.

Destruí este feminino

este ser de estereótipo,

destruí este corpo pequenino,

este protótipo,

esta dor

este dizer que apenas sei dar amor.

Este calor que me aflora a pele

este sentimento transmitido por ele

é nada mais nada menos que escuridão.

É um poço sem razão

verdade dita sem certeza e sem coragem,

tristeza perdida,

falácia de derrapagem.

Sentimento que surgiu e emergiu.

Pensamento que saiu e destruiu.

E esta nudez

este dar

sem receber,

esta simplicidade

de lutar

sem perceber,

esta ignorância

de me mexer

sem tolerar.

Sim, sofri nesta mágoa

de olhar em olhar

de perturbar em perturbar

de falar em falar.

Sofro deste não consentir

deste não permitir

desta constante repetição.

Sofri, sofro, sofrerei.

por Mara Pinto