NO DIA DAS RAPARIGAS, PARA TODAS AS RAPARIGAS

Vivemos numa cultura que, de muitas formas, tolera e até promove a violência sexual: relativizando-a, romantizando-a, naturalizando-a. Crescemos a ter os nossos corpos disciplinados, continuamente escrutinados, a ouvir que “mulher séria não tem ouvidos”. Dizem-nos para não responder, para ter cuidado, todas as cautelas e prudências: “não provoques, não respondas, não te vistas assim”. Aprendemos a ocupar menos espaço, a evitar caminhos, a medir o medo antes de andar sozinha na rua. 

A cultura da violação está viva e presente – e é particularmente insidiosa, penosa e punitiva para as raparigas e jovens mulheres. Para as raparigas, hoje é um dia de luta – todos os dias são dias de luta.

Hoje, no dia das raparigas, para todas as raparigas: 

Lembramos que a tua intimidade é um espaço de liberdade. 

Ninguém tem o direito de ter sexo contigo. És livre de ter sexo com alguém – igualmente livre de decidir e consentir – apenas se e quando quiseres. 

O teu corpo (passe o pleonasmo) é o teu corpo. Ninguém tem o direito de tocá-lo – tocar-te – ou comentá-lo, sem a tua vontade e autorização expressas. De te abordar sexualmente de forma não solicitada ou desejada – por ti.

Há muitos modelos e formas de viver a sexualidade: podes sentir atração por pessoas do mesmo sexo, do outro sexo, ou ambos. Sentir atração e desejo sexual não é obrigatório. Não há fórmulas nem medidas certas que se apliquem a todas as pessoas. 

A tua sexualidade é uma dimensão da tua vida. Tu és muitas outras coisas: todos os teus interesses e afetos, as causas e desafios que abraças, a marca que deixas em todas as coisas que fazes. 

As/os parceiras/os que possas ter tido, o sexo que tens ou não – nada disso define o teu valor. 

Não és responsável pela violência que exercem sobre ti. Se te agrediram sexualmente, intimidaram ou forçaram de alguma forma, a culpa não é tua. Nada do que vestes, a forma como danças, os espaços por onde andas, as/os parceiras/os que tiveste: nada justifica nem mitiga qualquer abuso, constrangimento ou imposição que tenham exercido sobre ti. 

Ninguém pode exigir-te sexo, independentemente do contexto ou vínculo relacional.

Ninguém tem o direito a fazer-te sentir culpada por não teres sexo. 

Ninguém tem o direito de te humilhar ou rebaixar por teres tido sexo com outra(s) pessoa(s).

És absolutamente livre de começar um ato sexual e querer pará-lo, a todo o tempo. 

Tens direito a viver livre de violência. De viver a tua sexualidade sem medo, desconforto, dor ou desprazer, constrangimento ou coerção. 

Ninguém tem o direito de te exigir nenhum tipo de interação ou prática sexual, nem de exercer pressão, ainda que de formas mais subtis.

Amor e violência são como azeite e água: não se misturam. Nenhuma forma de violência é uma prova de amor. 

Por regra, os ciúmes não são uma prova de amor – são uma prova de posse e de insegurança da outra pessoa. 

Tens direito a ser livre. Mereces ser livre: livre de violência e livre para viveres a tua vida de forma plena. 

Hoje é um dia de luta: o dia das raparigas, para todas as raparigas.