“Não foste nada assediada! Nem dizes nomes!”

É preciso muita coragem para vir a público expor situações de assédio. É preciso ainda mais força se considerarmos a posição social de quem vimos expor. O mais triste de tudo isto é sabermos que precisamos de coragem para denunciar pelas represálias que sofreremos por parte da sociedade, como se a pessoa assediada merecesse o ódio gratuito que há quem goste de destilar pelas redes sociais.

Sofia Arruda, atriz portuguesa de 32 anos de idade, confessou recentemente ter sido vítima de assédio, num canal de televisão, acabando por não trabalhar nos anos seguintes. As redes sociais dispararam em massa reações. Se, por um lado, outras mulheres se sentiram mais confortáveis e confiantes para exporem as suas próprias histórias, a verdade é que o outro lado se encheu e fervilhou com comentários machistas e misóginos. Essas pessoas, provavelmente com muito pouco para fazer nas suas vidas, decidiram que era uma boa forma de entretenimento enxovalhar em tudo quanto era caixa de comentário alguém que, por si só, já estava a abordar um tema em que expunha a sua vulnerabilidade enquanto ser humano. Enquanto Mulher.

Mulheres a atacarem outras mulheres porque estas decidiram falar de algo que lhes aconteceu. Para além destas pérolas, outras existem que demarcam Sofia como uma má atriz, como desesperada, como mentirosa, até de egoísta por não partilhar o nome da pessoa… O escárnio, o mal dizer, a maldade até. Não há ninguém que explique o conceito de empatia a estas pessoas? Não há bom senso que penetre o espírito desta gente e as faça compreender o quão irrisórios são os seus comentários? Não há limite que consigam distinguir, uma qualquer linha invisível que faça com que conheçam a famosa hora de parar? Ainda para mais, sendo mulheres. Como é possível que se proponham assim a agredir outras mulheres? Devem ser casos raros se nunca sentiram na pele o assédio, os convites despropositados, as situações desconfortáveis e opressoras a que os egos de alguns homens nos obrigam… Assédios são sofridos em todo o lado e sob variadas formas. Infelizmente, por existirem repercussões desta escala, o nosso primeiro pensamento não costuma ser apresentar queixar, sinalizar. Pelo contrário, procuramos até evitar. Somos assediadas em todas as idades. Na rua, na escola, no ginásio…

Ainda hoje, por estar a escrever este texto, percebi que tanto eu quanto a minha melhor amiga deixamos de frequentar o ginásio pelo mesmo motivo. Confiamos cegamente uma na outra mas nunca nos ocorreu contar que não nos sentíamos confortáveis para ir mais porque o professor de uma aula que frequentavamos e que monitorizava, também, o treino no ginásio decidiu que era boa ideia não parar de nos enviar mensagens impróprias. Simplesmente deixamos de ir e não falamos mais sobre o assunto. Até hoje.

s vítimas não são obrigadas a dizer-nos nada. Têm direito a processar os eventos em silêncio, a agir em conformidade com o seu bem-estar. Como pretendem que se incentive a quebra deste silêncio esmagador em torno da violência contra a Mulher, se são os primeiros e as primeiras a atirar pedras sempre que alguém decide falar? Não é por já terem aparecido nos vossos ecrãs que estas pessoas deixam de ser de carne e osso. Não são as personagens que vos aparecessem nas novelas de horário nobre. São pessoas. Merecem ser tratadas e respeitadas como tal. Não é por terem um nome conhecido que se devem calar, não é por terem uma profissão específica que querem aparecer. Ninguém gosta de ser assediada ou assediado só para dizer que apareceu.

Para além de tudo isto, falta dizer que os processos de queixa por assédio não são fáceis. As mesmas perguntas estúpidas que há quem faça nas redes sociais, as mesmas ideias absurdas sobre como é que a vítima se pôs a jeito ou o “de certeza que também querias”, são feitas durante o processo de queixa na maioria dos casos.

Sim, pasmem: as autoridades competentes tendem a falar connosco como se nós tivéssemos culpa. É verdade, a culpabilização das mulheres ainda está aí. Nós ainda somos as bruxas que não arderam na fogueira e os males de toda a sociedade. Afinal, não era bem mais fácil para toda a gente se ficassemos sempre caladas?

A Sofia não expôs somente o seu caso. Expôs o ódio que ainda habita por aí. Expôs o pensamento retrógrado e machista de uma grande percentagem de pessoas deste país. É urgente que exista mais respeito. Mais vontade de escutar as vítimas sem julgamentos arbitrários. Mais compreensão. Mais valores. Mais formação e educação. Mais empatia.

por Ana Catarina Borges (Técnica do dMpM4 Norte)