Episiotomia: A Mutilação Diária nos Hospitais Portugueses

A episiotomia é um corte feito no períneo (região entre a vulva e o ânus) que tem por objetivo facilitar a saída do bebé e evitar uma rutura. Esta é a definição vulgar de um dos procedimentos cirúrgicos mais comuns em obstetrícia e um dos mais realizados sem qualquer consentimento da mulher.

A episiotomia, para além de ser um procedimento invasivo, de aceleração do parto, é narrado como sendo desconfortável, sendo que muitas mulheres se sentem efetivamente violadas, violentadas e mutiladas com esta prática. Algumas mulheres sentem dores nas relações sexuais após este procedimento e outras desenvolvem infeções.

Por vezes, a episiotomia não tem impacto na saúde sexual da mulher, mas não deixa de ser um atentado ao seu bem-estar físico e mental, constituindo uma violação da dignidade, do direito à integridade física e do direito à sexualidade.

Estudos publicados ao longo das últimas duas décadas concluíram não haver razões científicas para continuar a executar, indiscriminadamente, a incisão no períneo durante o parto.

Considerações legais acerca das novas recomendações da Organização Mundial de Saúde relativamente à episiotomia:

A 15 de fevereiro de 2018, a Organização Mundial de Saúde veio emitir novas recomendações relativamente à Episiotomia. Se, anteriormente às recomendações a que nos reportamos, a Organização Mundial de Saúde admitia uma taxa de praticabilidade de episiotomias entre os 10% e os 15%, esta taxa deixou de vigorar, significando isto que a Organização Mundial de Saúde desencoraja a realização deste procedimento.

Não obstante o surgimento destas novas recomendações, a realidade é que a episiotomia é prática recorrente nos hospitais portugueses no âmbito dos partos vaginais. Em Portugal, a taxa de episiotomias ultrapassa 72,9% das mulheres que têm partos vaginais, a segunda taxa mais elevada da episiotomia nos países europeus, logo a seguir à de Chipre (http://www.associacaogravidezeparto.pt).

Assim, a episiotomia pode ser considerada, segundo estas recomendações, uma prática de mutilação genital feminina. Esta afirmação encontra eco na literatura médica sendo a episiotomia tida como uma moderna forma de mutilação genital feminina, mesmo que quando se fale em mutilação genital feminina a associação deste termo à episiotomia não pareça evidente para muitos profissionais médicos.

A episiotomia não previne a maioria das situações para as quais está indicada, em particular, as lesões graves. Criou-se um mito entre a classe médica de que é melhor cortar do que rasgar, tornando a episiotomia uma prática muito enraizada.

É mais fácil para a equipa médica, durante o período expulsivo de um parto, cortar e abreviar o nascimento do que esperar que o períneo distenda. Esta precipitação no corte do períneo é, na maioria dos casos, não consentida, e frequentemente evitável. A episiotomia é favorecida pela despersonalização e velocidade com que são realizados os procedimentos hospitalares.

 A decisão de fazer ou não uma episiotomia deve ser baseada não só na evidência científica, mas também na prática clínica. Há realmente casos em que é recomendada a episiotomia, mas o conhecimento sobre como proteger o períneo, técnica tão utilizada nos anos 20 e 30, diz-nos quando se deve optar, de facto, por uma episiotomia e dá-nos mais confiança para a fazer cada vez menos.

Existem estratégias para deixar a musculatura mais elástica e facilitar o parto normal, como é o caso da massagem perineal e de alguns exercícios a praticar ao longo da gravidez. Ao longo do trabalho de parto existem posturas que facilitam todo o processo e ajudam na fase de expulsão. O simples facto de caminhar em vez de estar deitada já vai fazer toda a diferença.

A grávida, ao desconhecer estas coisas, fica normalmente deitada de lado na maca durante todo o trabalho de parto, o que aumenta as chamadas “dores do parto” e diminui a eficácia das contrações, para além de não ajudar no processo de encaixe do bebé. Na fase de expulsão, a mulher fica deitada com as pernas elevadas e apoiadas nas perneiras, o que é contraproducente pois pedem-lhe que faça força como quando está a evacuar, mas nenhuma mulher evacua com as pernas nessa posição. Seria mais facilitador adotar posturas a favor da gravidade pois o bebé tem de descer e não subir.

O parto é um processo fisiológico e, durante o trabalho de parto, a mãe deve ter o papel principal. A mãe deverá receber suporte físico e emocional da equipa obstétrica, respeitando a sua privacidade e ter, sempre que possível, liberdade de posição e mobilidade.

Para que tudo isto seja possível, a grávida deve estar bem informada e ter conhecimentos sobre o que é a gravidez e como se desenrola o trabalho de parto, para que possa saber como ajudar o seu filho a nascer, sem stress, sem medo, participando ativamente em todo este processo maravilhoso que é o nascimento de um bebé. Cabe à mulher desafiar a visão obstétrica que a sociedade ocidental tem do parto, baseada na suposição de que este é um acontecimento médico que deve ser conduzido dentro de um ambiente de cuidado intensivo. A grávida que vai ter o bebé não está doente.

Para que a mulher possa ter um parto no qual ela seja respeitada, ela deve primeiro saber o que é melhor para ela e para o bebé, depois, conversar com a equipa que a vai assistir para poderem, em conjunto, delinear um plano de parto possível, respeitando o modo como ela gostaria de vivenciar essa experiência e, ao mesmo tempo, aceitando aquilo que poderá ou não ser possível por razões médicas.

Durante a gravidez, conversa com o teu médico/parteira sobre a tua filosofia acerca de episiotomias de rotina

A elaboração de um plano de parto é recomendado pela Organização Mundial de Saúde e consiste na elaboração de uma carta, feita pela mulher grávida durante a gravidez, com a ajuda do obstetra, onde ela regista as tuas preferências em relação a todo o processo do parto, procedimentos médicos de rotina e cuidados do recém-nascido.

Podes ler aqui como fazer essa carta: https://www.tuasaude.com/plano-de-parto/

O melhor modo de te preparares para o parto é frequentares um Curso de Preparação para o parto. Hoje em dia, quase todos os Centros de Saúde ministram cursos mensais gratuitos para grávidas onde podes adquirir os conhecimentos de que necessitas para o parto e o pós-parto, para além de conviveres com mulheres na mesma situação que tu, levando a uma grande troca de experiências, o que é muito positivo.

A importância das dimensões emocionais e psicológicas no período perinatal é cada vez mais reconhecida. O nascimento é um momento único e irrepetível na vida de uma mulher e de quem a acompanha, com grande impacto a curto, médio e longo prazo. Para que as experiências de parto das mulheres sejam positivas, impõe-se uma mudança de paradigma na assistência obstétrica, mas também um maior conhecimento por parte das grávidas de todo o processo que envolve o parto. Os cuidados, informados pela evidência científica atualizada, devem ser centrados na mulher, protagonista do ato de parir. Para tanto, há que deixar de considerar a mulher como um elemento externo e passivo ao seu próprio parto.

Sofia Jesus [Técnica de Projeto do dMpM4 (Centro)]