Um dia da Mulher diferente

Youth for Abolition no Parlamento Europeu
Relato de Maria Sepúlveda, ativista da Rede.

Antes de contar a aventura que foi o meu diferente dia da Mulher, é quase imperativo falar primeiro sobre o Lobby Europeu das Mulheres (LEM) e sobre o grupo/projeto que fui representar: Youth for Abolition.

O LEM é a maior “organização guarda-chuva” de associações de mulheres da União Europeia, que trabalha com o objetivo de promover os direitos das mulheres e a igualdade de género, assegurar a representação feminina e a promoção dos seus interesses ao nível europeu. Por sua vez, o Youth for Abolition é um projeto criado pelo LEM e levado a cabo por jovens mulheres de diferentes países da União Europeia que “lutam” pela abolição da prostituição, com o objetivo principal de proteger os direitos das mulheres e de alcançar a eliminação de qualquer tipo de violência contra estas.

Agora sim, o meu 8 de março em Bruxelas:
Inacreditável é o adjetivo que o caracteriza. Acho que só vivenciando uma experiência destas, se tem a noção do quão incrível é fazer parte de algo assim! Aprendi muito, descobri ainda mais, conheci pessoas espantosas e senti com muita intensidade que é da luta pelos direitos das mulheres que quero fazer a minha vida.

Foi uma quarta-feira cheia de agitação. Dirigimo-nos logo de manhã para o Parlamento Europeu, onde se passaram todas as comemorações do Fórum Feminista. Iniciámos, a nossa agenda com um flash mob da campanha “One Billion Rising” (considerada hoje em dia como uma das maiores acções em massa para acabar com a violência contra as mulheres). Dançámos ao som da música “Break the chain”, em frente ao Parlamento, enquanto chovia e nem mesmo isso fez com que a nossa “atuação” se tornasse ou menos boa, ou vítima de algumas desistências. Não, quem foi para ali com o intuito de dançar, dançou (mesmo à chuva), quem tinha ido apenas para cantar, continuou (mesmo à chuva), permanecemos todas e todos com uma animação e com um entusiasmo impróprio de um dia escuro e chuvoso como aquele… Foi sem dúvida alguma, um dos momentos que mais me marcou!
Porém, ainda tínhamos muito pela frente. Às duas da tarde começou a sessão “O Modelo Nórdico”, inaugurada por um filme francês “Prostitution as any job” (uma espécie de sátira à legalização da prostituição), apresentado por Raphaelle Rémy-Leleu, que representava tanto o Youth For Abolition como a OLF (Osez le Féminisme), uma ONG francesa.
Após vermos o filme foi-nos apresentado um painel de debate que englobava em si figuras como:
1) Marie Merklinge, membro do SPACE e sobrevivente da prostituição (com quem tive o prazer de conversar), que nos falou sobre a sua experiência no meio e sobre a atual realidade da Alemanha (onde a violência em que as mulheres são compradas por mera comodidade é legal e onde a taxa de criminalidade, seja tráfico de seres humanos, crime organizado, homicídios, etc., tem aumentado desde a sua legalização).
2) Simon Haggstrom, representante da polícia de Estocolmo que está encarregue da luta contra a prostituição e tráfico humano. No seu testemunho, deixou-nos a noção de que a prostituição está, quase sempre, ligada ao tráfico e que na maioria dos casos é um crime organizado. Explicou-nos também que quando se legaliza a prostituição, está-se a tornar o mercado, no mercado dos compradores, ou seja, quem “paga” é quem decide. Chegando à conclusão que o principal grande problema dentro desta estrutura são os “sex buyers”, na medida em que o “PIMP”/”chulo” vai sempre fazer o que estes quiserem.
3) Zoi Sakelliandou, Polícia Assistente no Gabinete da UE contra o tráfico de seres humanos. Falou-nos de números concretos relacionados com a prostituição e com o tráfico de seres humanos (onde 57% das vítimas sofre de abusos sexuais).
4) Martina Nuti, a representar a Isala asbl (associação belga de voluntárias/os para ajudar mulheres que estejam no mundo da prostituição). Focou a necessidade de criação de planos de reintegração, ou seja, planos de ajuda para pessoas envolvidas na prostituição se reintegrarem na sociedade.
Tivemos também como oradora Pierrette Pape, Diretora de Políticas e Campanhas do LEM (e minha anfitriã no PE), que nos introduziu o filme “Screeming Brussels call” (onde são entrevistadas sobreviventes da prostituição). Sensibilizou-nos para várias questões sobre e ligadas à prostituição como: a possibilidade de se perceber um padrão neste meio, na medida em que grande percentagem das mulheres que o integram, fazem parte dos países com maiores taxas de pobreza (como é o caso da Roménia, Albânia, Bulgária…); a existência de uma relação entre prostituição e racismo (os compradores querem mulheres “exóticas” que chegam e são trazidas de outras partes do mundo); o facto de quando a prostituição é legal num país, o Estado “tornar-se”, então num proxeneta. Para concluir esta conferência, ouvimos a Eurodeputada Malin Bjork (GUE) que fez algumas observações finais.
Mais tarde assistimos a uma peça de teatro francesa, “Plainte contre X” que foi introduzida pelo eurodeputado português João Pimenta Lopes. Foi uma peça forte sem medo de ferir susceptibilidades e falar de “tabus”, daquelas que nos arrepiam e ao mesmo tempo nos deixam desconfortáveis. Peças necessárias!

Youth for Abolition

Após este dia preenchido, a minha viagem chegou ao fim, despedi-me da Pierrette, do Parlamento e de Bruxelas… Mas não fiquei triste. Trouxe muito de lá, muita cultura, muitos novos conhecimentos, mais cabeça, algumas amigas e sem dúvida um bocado mais de “garra” e coragem. Tenho ideias mais estruturadas e sem dúvida alguma que, ao contrário do que estão a tentar que aconteça em Portugal, quero muito que o nosso país adote um modelo semelhante ao Nórdico.

Cada vez mais me convenço de que a igualdade entre homens e mulheres, não é uma urgência, não é uma necessidade, é uma INEVITABILIDADE.

Maria Sepúlveda